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04/09/2008
Declaração Final do Encontro Mulheres em Luta por Soberania
Alimentar e Energética
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Por soberania Alimentar e Energética! |
Nós, mulheres do campo e da cidade reunidas em Belo
Horizonte, de 28 a 31 de Agosto de 2008, expressamos nossa
visão sobre desafios e alternativas para a construção de
Soberania Alimentar e Energética.
Somos mulheres organizadas, protagonistas de lutas de
resistência em defesa de uma sociedade igualitária, onde a
organização da economia tenha como centralidade a
sustentabilidade da vida humana e não o mercado e o lucro.
O modelo atual de desenvolvimento se apropria do racismo e
do sexismo. Fundamenta-se em uma visão de economia que
considera o econômico apenas as atividades mercantis e
desconsidera a reprodução e invisibiliza o trabalho das
mulheres. Esse modelo se pauta por uma concepção de
desenvolvimento baseada na idéia de crescimento econômico
ilimitado, onde o mercado e o lucro privado são priorizados
em detrimento do interesse público e dos direitos humanos
fundamentais, onde a política econômica se orienta pela
opção exportadora, apoiada fortemente pelo Estado,
no agronegócio empresarial e no setor
minero-metalúrgico-energético e em uma demanda energética
insustentável.
Para manter esse modelo, grandes projetos energéticos e de
infra-estrutura são construídos, distantes das lógicas
produtivas e culturais que organizam os territórios,
provocando a expulsão do campesinato e de populações
tradicionais das suas terras, a contaminação dos
trabalhadores e trabalhadoras e o aprofundamento da crise
ambiental e das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, são
desconsiderados os caminhos alternativos e modos de
desenvolvimento voltados para a igualdade social e a justiça
ambiental que nossos movimentos têm proposto a partir de
suas práticas concretas nos territórios que se pautam pela
construção de Soberania Alimentar e Energética.
Em contraposição a este modelo afirmamos nossa luta
feminista e socialista por uma nova economia e sociedade
baseada na justiça social e ambiental, na igualdade, na
solidariedade entre os povos, assentada em valores éticos
coerentes com a sustentabilidade de todas as formas de vida
e a soberania de todos os povos e comunidades tradicionais
sobre seus territórios.
Diante disso:
Denunciamos:
O atual modelo de produção de energia que visa manter um
padrão de produção e de consumo ambientalmente insustentável
e socialmente injusto, baseado no monopólio das fontes de
energia pelas grandes empresas.
As falsas soluções de mercado que estão sendo propostas para
reverter o quadro de mudanças climáticas como a produção de
agrocombustíveis em grande escala, assim como as expansão de
impactantes projetos hidroelétricos e a retomada do programa
nuclear brasileiro, energia perigosa, cara e sem soluções
para os seus rejeitos.
O atual modelo de produção de agrocombustíveis, baseado em
monoculturas; modelo defendido pelo governo brasileiro e
controlado pelo agronegócio, que vem homogeneizando os
territórios, pressionando a expansão das fronteiras
agrícolas, gerando impactos sociais e ambientais e que tem
sido um dos grandes responsáveis pelo aumento dos preços dos
alimentos.
A especulação internacional dos produtos alimentícios que
também se constitui em uma das causas do aumento dos preços
dos alimentos, ao lado do aumento do preço do petróleo e do
desvio de alimentos para produção de etanol e biodiesel.
O trabalho escravo que sustenta esse modelo e as péssimas
condições de trabalho e de exploração do assalariado e
assalariada rural, além do abuso sexual e o assedio moral a
que são vitimas trabalhadoras do campo e da cidade.
Que o controle da cadeia produtiva alimentar pelas grandes
transnacionais ameaça a soberania alimentar e a saúde da
população. Em especial os produtos transgênicos e os altos
níveis de agrotóxicos utilizados nos alimentos com a
cumplicidade das autoridades públicas que não zelam para que
as legislações sobre rotulagem de transgênicos e agrotóxicos
sejam respeitada pelas indústrias.
O desaparecimento de sementes crioulas, a perda de
biodiversidade e a ameaça a segurança alimentar em virtude
da liberação comercial de cultivos transgênicos e da
expansão das monoculturas de exportação, apoiadas por
empresas e universidades publicas, enquanto falta pesquisa
para avaliar riscos no meio ambiente e`a saúde do consumo de
transgênico.
A privatização dos recursos naturais e a apropriação de
nossas terras, a exploração da nossa floresta, das águas e
de nossos rios, mares e manguezais pelo capital com apoio
dos recursos públicos.
A privatização do setor elétrico que contribuiu para que as
tarifas de energia sejam diferenciadas entre os consumidores
residenciais e indústria e as políticas energéticas
beneficiem as grandes indústrias para obterem cada vez mais,
mais lucros.
As cidades brasileiras sofrem impactos diretos desse modelo
de desenvolvimento alimentar e energético, com as altas
taxas no preço da energia, com o aumento dos preços dos
alimentos, com a precarização do
trabalho e do transporte coletivo urbano e com a especulação
imobiliária.
Reafirmamos:
A necessidade de construir um novo modelo energético para o
Brasil que priorize a produção e a distribuição
descentralizada de energia visando atender as necessidades
locais e territoriais e que contemple a participação da
população no seu planejamento, decisão e execução. E que
contribua para a autonomia das mulheres, possibilitando a
elas protagonizarem experiências de Soberania Energética em
seus territórios.
A necessidade de desenvolvermos formas de consumo e
comercialização de produtos de forma solidária e sustentável
com o fortalecimento dos mercados locais e feiras livres,
assim como o reconhecimento do trabalho produtivo das
mulheres e seu fortalecimento.
Que é tarefa do Estado a viabilização de
políticas públicas que garantam a nossa Soberania Alimentar
e Energética.
A importância da pesquisa, desenvolvimento e implantação de
fontes energéticas alternativas e o reconhecimento e
investimento do Governo nas experiências descentrizadas de
produção alternativa de energia, na socialização do trabalho
doméstico e no fortalecimento da agricultura camponesa.
A agroecologia como projeto político para alcançar a
soberania alimentar, assim como a luta
pela Reforma Urbana, a agricultura urbana e a defesa de uma
nova ocupação do espaço urbano para moradia e produção como
orientadoras de políticas publicas.
A luta pelo direito à terra através da Reforma Agrária, onde
esteja garantido o direito da mulher a terra, o acesso aos
recursos naturais e `as decisões sobre seus usos.
Os direitos territoriais de povos indígenas e populações
quilombolas.
O direito ao trabalho em condições dignas e bem remunerado.
O direito a previdência social, a diminuição da jornada de
trabalho, a socialização do trabalho reprodutivo.
Uma integração regional que esteja pautada na solidariedade,
na complementariedade entre nossas economias, na
sustentabilidade das praticas socioculturais e produtivas.
Nos comprometemos:
A lutar por justiça ambiental, pela reforma agrária, e em
defesa da sustentabilidade da vida como valor central para a
economia.
A desenvolver formas organizativas de luta das mulheres
contra esse modelo de desenvolvimento que afeta o campo e a
cidade e a denunciar permanentemente as diferentes formas de
opressão e mercantilização que vivem as mulheres.
A construir e a fortalecer alianças entre movimentos sociais
do campo e da cidade e a defender a necessidade de
articularmos nossas experiências reivindicando políticas
públicas que visibilizem as nossas experiências alternativas
e nossas propostas para construção de uma transição rumo a
um modelo de desenvolvimento que tenha como centro a
sustentabilidade e a dignidade da vida humana.
A desenvolver formas de uso sustentável dos recursos
naturais e das energias renováveis sustentáveis (eólica,
solar e biomassa) bem como o aproveitando a água da chuva
através da utilização de cisternas, o uso de placas solares
e de experiências autônomas que contribuam para a construção
de um novo modelo energético;
A lutar pela reestatização do setor elétrico e a defender o
uso sustentável das águas e dos recursos energéticos.
A lutar pela autonomia econômica das mulheres e pelo direito
ao trabalho digno e a fortalecer a luta dos trabalhadoras e
trabalhadores assalariadas.
A lutar pela recuperação, preservação e multiplicação das
plantas medicinais e sementes crioulas, em defesa da
biodiversidade, da água e pelo direito de decidir sobre
nossa vida, nossos alimentos, nosso corpo.
A lutar pelo direitos territoriais dos quilombolas e
indígenas, porque suas lutas também são nossas. Por isso
apoiamos a demarcação continua da Terra Indígena Raposa
Serra do Sol em Roraima e reafirmamos os direitos dos povos
indígenas aos seus territórios.
A realizar as mobilizações dos dias 16 e 17 de outubro por
Soberania Alimentar, a participar da campanha contra o preço
de energia e a fortalecer nossa marcha no 8 de março como
processos de reafirmação de nossa luta por soberania
alimentar e energética, diante da necessidade de construir
um novo modelo energético e alimentar para o Brasil.
Mulheres em Luta por Soberania Alimentar e Energética! |