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01/09/2008
Debate aberto
pelo STF cria cenário otimista para terras indígenas
Escrito por
Gabriel Brito
29-Ago-2008
Para analisar e refletir a
respeito do andamento da ação de homologação no STF, o Correio
da Cidadania conversou com Paulo Maldos, assessor politico do
CIMI (Conselho Indigenista Missionário). Para ele, o resultado
parcial ainda não favorece nem mesmo aos índios. Mas com as
posições de representantes do governo e do ministro Carlos
Ayres de Britto, o quadro é positivo em relação à demarcação
em terra contínua da reserva, pois, mesmo com o pedido de
vistas requerido por outro ministro, a argumentação dos
rizicultores é inconsistente e já foi amplamente superada.
A entrevista completa pode ser
conferida a seguir.
Correio da Cidadania: Como
você analisa a paralisação do julgamento da homologação
definitiva de Raposa/Serra do Sol e que lado se beneficia mais
com o pedido de vistas do ministro Carlos Alberto Menezes de
Direito?
Paulo Maldos: É comum
nessas questões algum ministro do STF usar esse procedimento
de pedir vistas. Surpreendeu por ser logo no início, mas é
corriqueiro. Na verdade e a rigor, nenhum lado perde ou ganha.
O que percebemos ontem é que o voto do Ayres de Britto foi
surpreendente, pois ele não tinha sinalizado nada antes e se
mostrou amplamente favorável à demarcação contínua. Seu voto
revelou um trabalho intenso de leitura, pesquisa nos autos e
muita fundamentação histórica e antropológica, revelando que
ficou muito atento, de abril para cá, às polêmicas na
imprensa.
Tanto nós, como os advogados dos
arrozeiros ficamos surpresos. Ao que me parece, os demais
ministros estavam com o voto pronto, inclusive o Menezes de
Direito disse isso, mas o impacto do voto do Ayres fez com que
eles sentissem necessidade de se preparar melhor. O Menezes de
Direito é um ministro de corte conservador e deve ter se dado
conta de todo o momento anterior, em que falaram o
representante da comunidade indígena, a advogada dos índios, o
Procurador Geral da República. Esse conjunto de falas criou um
panorama que destruía toda a argumentação construída até hoje
pelos arrozeiros e seus advogados. Eles foram extremamente
pobres nesse sentido, usando argumentos já conhecidos há
tempos, sem adicionar nada, com ataques generalizados aos
antropólogos e acusações genéricas de ameaça à soberania.
Portanto, não sobrou nada da
argumentação deles. Provavelmente a argumentação do Direito
não adicionaria muito ao que tinham falado os advogados dos
arrozeiros e sabia que assim já estava destruído. Dessa forma,
foi melhor pedir vistas para pegar uma lupa e olhar todos os
autos, a fim de descobrir outras razões ou até mesmo mudar de
opinião simplesmente. Com a fala da índia, do Paulo Guimarães,
do advogado da União, talvez ele tenha adquirido novos
olhares, então tomara que mude também e fique a favor dos
índios.
Não necessariamente esse pedido
de vistas prejudica os índios, que têm argumentos sólidos e
continuarão tendo. Isso, na verdade, dá mais tempo de tirar
dúvidas e esclarecer ainda mais as coisas. O desafio para os
arrozeiros é conseguir novos argumentos, mas eles não os
possuem mais. São os mesmos daquelas 300 contestações que
fizeram no governo FHC quando se deu a abertura para
contestações a respeito de demarcação de terras. Essas
argumentações já foram superadas e derrotadas há muito tempo
na verdade. Ocorre que eles usam os mecanismos jurídicos ao
máximo para se manterem na terra e verem se invadem mais, como
fazem a cada ano.
O que eles entendem por
propriedade não é ter algum título, mas sim fincar estacas e
contratar pistolagem. Para eles, isso é propriedade.
E para completar, o Quartiero já
avisou que tem mais de 8 mil estacas guardadas, apenas
esperando a oportunidade de colocá-las e ampliar a invasão.
Ele se sente impune, já que é apoiado por governo do estado,
alguns senadores governistas inclusive, políticos e a mídia de
Roraima e nacional. Para ele, não existem instituições, não há
limite algum, tanto que já deu até declarações ao Valor
Econômico dizendo que não aceitará ser "roubado" pelo STF. Até
pelo ponto de vista das instituições burguesas me surpreende
essa conduta, pois ele não respeita nenhuma instituição e se
comporta como um animal solto e enfurecido; não sei como
suportam tal comportamento.
Infelizmente, o Estado
brasileiro tem dado a ele um status que não dá a ninguém. É um
cara que já colocou mina em estrada para matar policial
federal, o filho já jogou bomba na PF, fez algo até inédito,
que foi colocar na frente da reserva uma mulher-bomba (que
inclusive é candidata a vice dele na sua cidade), já usou
carro-bomba... Em tempos passados, um cara assim no mínimo
estaria preso e no hospício. Porém, está aí, dando declarações
à imprensa. É um assassino potencial permanente, funciona na
base da autocombustão. Disse na sessão que se surpreende por
não ter sido retirado de lá e fuzilado. Quem diz isso vive num
mundo imaginário, de guerra imaginária. Pelo menos agora tem
companhia, como o Fregapani. Eles se comparam à Geórgia,
Curdistão...
CC: Portanto, os índios e
aqueles que os defendem na questão podem ficar mais otimistas
depois do que se viu até agora no julgamento do caso?
PM: Sim, porque não
tínhamos uma avaliação dos votos dos ministros, que são muito
discretos, como devem ser, aliás. O governador de Roraima deu
uma entrevista à Mônica Bergamo no Mineirão dizendo que sabia
que a votação seria 7 x 4 e que inclusive o FHC teria
participado do acordo. Achamos muito improvável, mas em outras
entrevistas ele reafirmou que já estava tudo certo. Depois o
Jobim também afirmaria o mesmo.
Enfim, eram notícias e mais
notícias plantadas dando conta de que os arrozeiros ficariam e
que um novo desenho da reserva era inevitável. Não
acreditávamos tanto e até nos perguntávamos de onde vinha
tanta segurança. Nessa fase final ficou todo mundo quieto, os
arrozeiros não falaram mais nada, militares também não; só
ouvíamos isso, o que nos deu certa preocupação.
Portanto, o voto do relator ter
sido tão profundamente favorável aos índios foi uma ótima
surpresa, deu muito alento de que outros ministros o sigam.
Existe um campo fértil de argumentação a favor dos índios e há
uma receptividade por parte dos ministros, na linha de que a
Constituição respalda os direitos originários, que eles
contribuem para a sociedade. Os procedimentos técnicos foram
conduzidos de forma correta, a questão da soberania é uma
invenção, enfim, toda essa argumentação tem receptividade no
STF, o que nos deu uma esperança enorme. Rompeu-se aquela
situação estéril para que viessem à luz argumentos de guarida
no STF.
A sociedade brasileira estava
muito desinformada meses atrás e foi aterrorizada com os
argumentos dos arrozeiros. Ela estava despreparada para
compreender a situação, mas nos últimos meses o debate
aumentou, entraram argumentos qualificados de gente como Dalmo
Dallari, Marina Silva, Boaventura de Sousa Santos, muitos
argumentos de peso, fora outros que vieram sendo debatidos ao
longo desses meses.
CC: Você teme por um clima de
guerra na reserva entre os arrozeiros e os indígenas até a
definição do caso?
PM: O que pode acontecer
é os arrozeiros, no desespero de quem vai perder, provocarem
as comunidades a fim de arrancar algum conflito e daí acusarem
os índios de violentos, dentre outras coisas.
Porém, os índios estão muito bem
preparados e não vão aceitar provocações. Ontem mesmo, depois
do pedido de vistas, na Vila Surumu, na Raposa, onde de um
lado da rua ficam as comunidades e do outro os jagunços, estes
passaram a comemorar e a se embriagar como se fosse uma
vitória. Os índios, que não tinham TV, não entendiam nada. E a
noite inteira foi assim, os jagunços partindo para cima e
provocando as comunidades. É algo muito perverso; a mentira
permanente, arrogância, prepotência. É assim que eles tentam
arrancar alguma coisa da comunidade, para depois acusá-la de
agressora.
Para dar um exemplo, em maio
havia gente trabalhando em paz na reserva e chegaram
motociclistas soltando bombas. Eles falaram que foram os
índios que os agrediram, sendo que o governador de Roraima
ainda teve a capacidade de chamar os índios de terroristas.
Quer dizer, o pessoal está lá construindo uma maloca, chega um
grupo armado, joga bomba, atira, quase mata 10 pessoas e quem
sofre tudo isso é terrorista.
CC: E vai ficar muito
complicada essa pressão sobre os indígenas de parte dos
políticos de Roraima, que são amplamente favoráveis aos
arrozeiros?
PM: Complicado sempre
foi. Só que agora eles estão perdendo força, perdendo
justamente a capacidade de pressão, como está sendo
demonstrado no STF e como se nota pela ausência de apoio
explícito. Estão perdendo o gás.
Eles provocaram uma onda forte
em abril, que se tivesse sido concluída naquela mesma época
muito provavelmente teria resultado negativo para os índios.
Aquela onda poderosa - com editoriais da Rede Globo, Clube
Militar se pronunciando, General Heleno indo para a TV -
poderia provocar um julgamento altamente negativo.
Acontece que outra onda veio de
baixo, das universidades, de juristas, movimentos sociais, Via
Campesina, sociedade brasileira e até parte da própria mídia,
inclusive de Roraima. Quando estive lá, lia cartas de leitores
de boa fé que saíram da reserva de Raposa e que estavam
indignadas com a resistência armada dos não-índios Ou seja,
pessoas de Roraima, que moravam dentro da área indígena,
concordavam em sair e achavam que os outros deveriam fazer o
mesmo, indignadas com esse comportamento. Portanto, agora é a
hora da onda dos índios, e creio que será a vencedora.
CC: Você acredita que o STF
finalizará o processo neste ano?
PM: Acho que sim, pois
eles têm consciência de que há uma grande expectativa em torno
deste processo. O Gilmar Mendes já pediu ao Direito que seja
rápido no estudo dele quanto ao pedido de vistas. Ele não
disse para quando exatamente, mas que neste semestre vão
debater e encerrar o assunto. |
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